Apesar de décadas de evidência consolidada sobre eficácia e segurança, a terapia hormonal (TH) na menopausa continua subutilizada na prática clínica. O motivo raramente é falta de dados, é insegurança prescritiva. 

Entre o receio de reproduzir a interpretação exagerada dos primeiros resultados do Women’s Health Initiative, o desconforto em lidar com histórico de risco cardiovascular ou trombótico da paciente, muitos médicos optam por não prescrever, ou prescrevem sem considerar a variável que mais impacta o perfil de segurança: a via de administração.

Entretanto, escolher entre estrogênio oral e transdérmico não é uma questão de preferência ou comodidade posológica. É uma decisão farmacológica que muda a fisiologia do metabolismo hormonal e, com isso, o risco individual da paciente.

Farmacologia comparada: o que muda entre a via oral e a transdérmica

Primeiramente, a diferença central entre as duas vias está no metabolismo hepático de primeira passagem. Quando o estrogênio é administrado por via oral, ele passa obrigatoriamente pelo fígado antes de atingir a circulação sistêmica. 

Esse trânsito hepático estimula a síntese de diversas proteínas, incluindo fatores de 

  • Coagulação
  • proteínas transportadoras (como a SHBG) 
  • triglicerídeos (um efeito que não ocorre, ou ocorre de forma muito atenuada, quando o hormônio é absorvido pela pele).

Na prática clínica, esse detalhe farmacocinético se traduz em diferenças de risco relevantes. Coortes observacionais mostram associação entre a via oral e maior risco de tromboembolismo venoso, enquanto a via transdérmica tende a apresentar um perfil mais neutro nesse desfecho, provavelmente por evitar o pico de síntese hepática de fatores pró-coagulantes. 

O impacto lipídico também diverge: a via oral pode elevar HDL e triglicerídeos simultaneamente, enquanto a transdérmica tem efeito mais discreto sobre ambos.

Isso não significa que a via oral deva ser abandonada. Para muitas pacientes sem fatores de risco adicionais, ela continua sendo uma opção segura e eficaz. Porém, isso significa que a escolha da via deveria fazer parte da anamnese de risco, no mesmo nível de importância que a escolha da progesterona ou a decisão sobre reposição contínua versus cíclica.

Bioidênticos e terapia hormonal na menopausa: mitos e evidências

Um dos maiores equívocos que circula entre pacientes e, por vezes, também entre prescritores, é a ideia de que hormônios “bioidênticos” manipulados seriam mais seguros ou mais naturais do que formulações industrializadas. Esse é um problema de enquadramento, não de farmacologia.

Do ponto de vista molecular, “bioidêntico” apenas descreve hormônios com estrutura química idêntica à produzida pelo corpo humano — como o estradiol e a progesterona micronizada. Esses mesmos compostos estão disponíveis em formulações industrializadas, registradas e com controle de qualidade regulatório da Anvisa, incluindo apresentações transdérmicas (gel, adesivo) e orais.

Vale ressaltar que, o problema não está na molécula, mas na origem da manipulação. Fórmulas magistrais não passam pelos mesmos controles de biodisponibilidade, estabilidade e reprodutibilidade de dose exigidos para produtos industrializados registrados. 

Isso gera variabilidade de absorção difícil de prever clinicamente, um risco real, mas que costuma ser mascarado pelo apelo de marketing do termo “natural”.

A discussão clinicamente relevante, portanto, nunca deveria ser “bioidêntico vs. sintético”, mas sim: qual molécula, qual via de administração e qual formulação com rastreabilidade e controle de qualidade adequados para aquela paciente específica.

Caso clínico: Decisão individualizada diante de trombofilia

Cenário

Paciente climatérica, 52 anos, sintomas vasomotores moderados a intensos, com histórico pessoal de trombofilia hereditária (heterozigose para fator V de Leiden), sem evento trombótico prévio.

Conduta

Diante do histórico de trombofilia, a via oral foi descartada como primeira escolha, dado o risco aumentado de tromboembolismo venoso associado à síntese hepática de fatores de coagulação. Optou-se por estradiol transdérmico em gel, associado a progesterona micronizada por via oral noturna, com reavaliação clínica em 3 meses.

Racional

O protocolo fixo não guiou a decisão, mas ponderou entre benefício sintomático e perfil de risco individual. Exatamente o tipo de julgamento clínico que a farmacologia comparada entre vias permite fazer com mais segurança.

Por fim, a escolha da via de administração na terapia hormonal na menopausa não deveria ser tratada como detalhe secundário, tampouco decidida por conveniência posológica ou por pressão de mercado em torno de formulações “naturais”. 

Trata-se de uma decisão farmacológica individualizada, que precisa considerar metabolismo hepático de primeira passagem, perfil lipídico e risco tromboembólico específico de cada paciente. 

Protocolos fixos simplificam a prescrição, mas é a análise caso a caso (como no exemplo da paciente com trombofilia) que efetivamente reduz risco e resgata a confiança do médico na indicação da terapia hormonal.

De forma geral, o manejo da TH na menopausa em 2026 passou por mudanças relevantes rumo a uma abordagem mais individualizada e menos estigmatizada: a FDA retirou os alertas em tarja preta de produtos estrogênicos específicos, o que vem sendo associado a um aumento expressivo nas taxas de prescrição, sinalizando uma reavaliação global da segurança do tratamento. No Brasil, o novo manual do Ministério da Saúde passou a tratar a menopausa como uma etapa natural e biológica da vida, e não mais sob a ótica de doença ou “falência hormonal”, reforçando o foco na saúde global.

Paralelamente, o debate segue aberto sobre o limite etário para início da TH acima dos 60 anos e sobre via transdérmica universal versus indicação seletiva, e ganham espaço novidades como antagonistas de neuroquinina (NK3R), uma nova classe não-hormonal para sintomas vasomotores, além de inteligência artificial como suporte à decisão clínica e telemedicina aplicadas ao cuidado da menopausa

Domine a farmacologia hormonal aplicada na Pós-Graduação em Saúde Integral da Mulher. 

 

Referências: