Primeiramente, a perimenopausa é um período de transição fisiológica caracterizado pela diminuição progressiva da reserva folicular ovariana, com instabilidade hormonal e irregularidade do padrão menstrual. Durante essa fase, observam-se flutuações marcadas de estradiol e progesterona, ciclos anovulatórios crescentes e alterações na secreção de FSH e LH.
Dessa forma, ocorre a culminação, em geral, de 4 a 8 anos antes da menopausa, em um quadro clínico multifatorial que envolve sintomas vasomotores, genito-urinário, neuropsiquiátrico e metabólico.
O presente artigo discute a fisiopatologia, o diagnóstico clínico e as principais estratégias de manejo na perimenopausa, com foco em práticas baseadas em evidências para o médico assistencialista.
Relevância clínica da perimenopausa
A perimenopausa não é apenas uma fase de transição esperada fisiologicamente, mas um período de alta vulnerabilidade metabólica, cardiovascular, osteomuscular e psicossocial. Portanto, a queda progressiva da produção ovariana de estrogênio altera múltiplos eixos endócrinos e sistêmicos, com consequências diretas sobre:
- Composição corporal
- Perfil lipídico
- Função vascular
- Modulação inflamatória
- Homeostase óssea.
Essas mudanças acontecem em um momento em que a mulher acumula outros fatores de risco, como envelhecimento, sedentarismo e histórico familiar de doenças cardiovasculares.
Do ponto de vista cardiovascular, a perimenopausa marca o início da “desproteção hormonal”, com aumento da frequência de hipertensão, dislipidemias, insulino‑resistência e alterações de função endotelial. A perda de efeito benéfico do estrogênio sobre a vasodilatação, perfil lipídico e inflamação vascular contribui para o aumento da rigidez arterial e, portanto, do risco aterosclerótico.
Esses dados reforçam a importância de incluir a fase perimenopausal como um marco cronológico para escalonar a vigilância cardiovascular, com avaliação periódica de pressão arterial, perfil lipídico, glicemia e marcadores de risco.
Critérios diagnósticos e papel dos exames laboratoriais
O diagnóstico de perimenopausa é, na maioria dos casos, clínico, baseado em idade, padrão menstrual e quadro sintomático compatível, sem necessidade obrigatória de exames hormonais em mulheres acima de 45 anos.
Vale ressaltar que, aceita‑se que a perimenopausa se inicie quando aparecem ciclos menstruais irregulares (oligomenorreia ou ciclos de intervalo variável) combinados a sintomas vasomotores, neuropsiquiátricos ou genito‑urinários. Isso ocorre em geral entre 40 e 55 anos, tendo como ponto final a confirmação da menopausa após 12 meses de amenorreia.
Nesse contexto, exames laboratoriais, especialmente FSH, LH e estradiol, têm papel auxiliar e restrito, devido à alta variabilidade cíclica de seus níveis ao longo da transição. Um FSH elevado em um único ponto não confirma perimenopausa nem menopausa, assim como valores “normais” não a excluem.
Ainda assim, em mulheres com idade <40 anos, com sintomas vasomotores intensos, amenorreia ou oligomenorreia, a dosagem de FSH, LH e estradiol pode ser útil para investigar insuficiência ovariana prematura, com implicações para fertilidade e risco longo‑prazo de osteoporose e doença cardiovascular.
Impacto metabólico e cardiovascular na transição menopausal
A transição menopausal está associada a profundas alterações metabólicas e cardiovasculares, com impacto direto sobre risco de síndrome metabólica, diabetes mellitus e doença cardiovascular. Durante a perimenopausa, o hipoestrogenismo leva a aumento da adiposidade central, elevação de colesterol total, LDL‑c e triglicerídeos. Além disso, traz uma piora do controle glicêmico, favorecendo resistência à insulina e maior prevalência de síndrome metabólica.
Essas modificações metabólicas se associam a disfunção endotelial, aumento de rigidez arterial e remodelamento vascular, o que explica o aumento progressivo do risco cardiovascular mesmo em mulheres com idade relativamente jovem, independentemente de envelhecimento cronológico isolado.
De acordo com a Diretriz Brasileira sobre Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa 2024, a perimenopausa deve ser encarada como um marco de estratificação de risco. Considerando a necessidade de vigilância mais intensa de pressão arterial.
Por fim, essas evidências clínicas reforçam a importância de abordar a perimenopausa como janela de intervenção para redução de morbidade cardiovascular e metabólica. Dessa forma, se integra terapia hormonal quando indicada, modificações de estilo de vida e vigilância sistemática de fatores de risco.
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