A SOMP, síndrome ovariana metabólica poliendócrina, exige que o médico conecte manifestações que frequentemente chegam ao consultório como queixas isoladas: irregularidade menstrual, hirsutismo, acne ou alterações glicêmicas. Por isso, ginecologia, endocrinologia, dermatologia e cardiologia oferecem perspectivas complementares sobre uma mesma condição, embora o cuidado também envolva a atenção primária e outras áreas conforme a necessidade.
Em maio de 2026, um consenso internacional apresentou o nome polyendocrine metabolic ovarian syndrome, PMOS, em inglês, para substituir a denominação síndrome dos ovários policísticos, ou SOP. A mudança reconhece a natureza multissistêmica da condição; entretanto, não altera, por si só, os critérios diagnósticos nem exige que toda paciente apresente obesidade ou doença metabólica estabelecida.
SOMP além dos ovários
O nome anterior favorecia uma leitura centrada na morfologia ovariana, embora a síndrome envolva alterações endócrinas, reprodutivas, metabólicas e psicológicas. Além disso, os múltiplos folículos que caracterizam a morfologia ovariana policística não correspondem a cistos patológicos. Assim, o novo enquadramento procura aproximar a linguagem da fisiopatologia e reduzir interpretações restritivas.
No entanto, o médico precisa distinguir amplitude clínica de critério diagnóstico. Em mulheres adultas, a diretriz internacional de 2023 orienta o diagnóstico a partir de pelo menos dois dos três componentes abaixo, após a exclusão de outras causas.
- Disfunção ovulatória, que pode se manifestar por ciclos irregulares;
- Hiperandrogenismo clínico e/ou bioquímico, conforme a avaliação clínica e laboratorial;
- Morfologia ovariana policística, que a ultrassonografia identifica; alternativamente, o médico pode utilizar o hormônio antimülleriano no algoritmo diagnóstico de adultas.
Portanto, a ultrassonografia não confirma a síndrome isoladamente nem constitui uma etapa obrigatória em todas as apresentações. Quando a paciente adulta apresenta irregularidade menstrual e hiperandrogenismo, o médico pode estabelecer o diagnóstico sem solicitar ultrassonografia ou hormônio antimülleriano, desde que exclua diagnósticos diferenciais.
Por outro lado, a adolescência exige critérios próprios: o diagnóstico demanda disfunção ovulatória e hiperandrogenismo, com interpretação do padrão menstrual conforme o tempo desde a menarca. Nessa fase, a diretriz não recomenda ultrassonografia ou hormônio antimülleriano para estabelecer o diagnóstico, devido à baixa especificidade.
Assim, reconhecer a dimensão sistêmica da SOMP não significa ampliar indiscriminadamente exames ou diagnósticos. Significa aplicar critérios adequados à fase da vida e, depois, investigar manifestações e riscos que a queixa inicial talvez não revele.
Quatro especialidades, uma avaliação integrada
As quatro áreas contribuem em momentos distintos, mas compartilham uma responsabilidade: evitar que a manifestação mais evidente limite a avaliação. Para isso, o médico precisa combinar a investigação direcionada à queixa com o rastreamento das principais comorbidades e a definição de um plano longitudinal.
Ginecologia: ciclos, fertilidade e endométrio
A ginecologia frequentemente recebe a paciente com oligomenorreia, amenorreia ou dificuldade para engravidar. Entretanto, a avaliação não termina na identificação da anovulação: o médico também precisa discutir planejamento reprodutivo, contracepção e proteção endometrial.
A diretriz reconhece maior risco de hiperplasia e câncer de endométrio na síndrome, sobretudo quando a paciente acumula fatores adicionais, como amenorreia prolongada sem tratamento, diabetes tipo 2 e maior peso corporal. Ainda assim, o baixo risco absoluto de câncer não justifica rastreamento endometrial de rotina para todas as pacientes; em vez disso, o médico individualiza a investigação conforme sintomas e achados clínicos.
Consequentemente, regularizar ciclos e utilizar progestagênios quando apropriado integra a prevenção endometrial. Já no contexto de infertilidade anovulatória, a diretriz recomenda letrozol como primeira opção farmacológica para indução da ovulação quando a avaliação não identifica outros fatores de infertilidade.
Ponto de atenção: controlar o sangramento não encerra a avaliação da síndrome. Mesmo quando a paciente não deseja engravidar, o acompanhamento precisa contemplar riscos metabólicos e cardiovasculares.
Endocrinologia: risco metabólico além do IMC
A endocrinologia integra a avaliação do hiperandrogenismo, dos diagnósticos diferenciais e das alterações metabólicas. Nesse processo, o índice de massa corporal não pode funcionar como filtro para o rastreamento: a síndrome aumenta o risco de alterações glicêmicas e diabetes tipo 2 independentemente da idade e do IMC.
Por isso, a diretriz orienta avaliar o estado glicêmico no diagnóstico e repetir a investigação a cada um a três anos, conforme os fatores de risco individuais. Além disso, recomenda o teste oral de tolerância à glicose com 75 g como a avaliação mais acurada; quando a paciente não consegue realizá-lo, o médico pode considerar glicemia de jejum e/ou hemoglobina glicada, reconhecendo a menor acurácia dessas alternativas.
Embora a resistência insulínica participe da fisiopatologia, a diretriz não recomenda dosagens rotineiras de insulina na assistência, devido à utilidade clínica limitada dos ensaios disponíveis. Portanto, o médico não deve confundir rastreamento de disglicemia com a necessidade de medir insulina em todas as pacientes.
Quanto ao tratamento, a equipe recomenda alimentação saudável e atividade física para todas as pacientes, com metas individualizadas e sem estigmatização do peso. Além disso, o médico pode considerar metformina para objetivos metabólicos, especialmente em adultas com IMC igual ou superior a 25 kg/m²; entretanto, a indicação exige avaliação de benefícios, tolerabilidade e contexto clínico.
Dermatologia: sinais cutâneos com contexto
O hirsutismo pode motivar a primeira consulta e sinalizar hiperandrogenismo. Contudo, acne e alopecia de padrão feminino, quando aparecem isoladamente, oferecem menor valor preditivo para hiperandrogenismo bioquímico; por isso, o dermatologista precisa investigar história menstrual, progressão dos sintomas e demais achados antes de atribuí-los à SOMP.
Além disso, início recente, progressão rápida ou sinais de virilização exigem investigação de outras causas de excesso androgênico. Nesse cenário, o médico considera, entre os diagnósticos diferenciais, tumores produtores de androgênios, hiperplasia adrenal congênita e síndrome de Cushing, conforme a apresentação.
O tratamento também demanda integração: contraceptivos hormonais combinados podem ajudar no controle do hirsutismo e das irregularidades menstruais, após avaliação de contraindicações. Entretanto, quando o médico considera antiandrogênicos, precisa assegurar contracepção eficaz nas pacientes com possibilidade de gestação e explicar os riscos fetais.
Por fim, a avaliação deve reconhecer o sofrimento associado às manifestações cutâneas, mesmo quando o exame sugere menor gravidade. A paciente pode utilizar métodos de remoção de pelos que reduzam os sinais visíveis, sem eliminar o impacto sobre sua qualidade de vida.
Ponto de atenção: acne não equivale a diagnóstico de SOMP, assim como tratar o hirsutismo não dispensa a avaliação sistêmica.
Cardiologia: prevenção antes das complicações
A dimensão cardiovascular amplia o cuidado para além da fertilidade e da glicemia. Uma revisão sistemática com metanálise publicada no Journal of the American Heart Association reuniu 20 estudos e aproximadamente 1,06 milhão de mulheres nas análises quantitativas, identificando associações entre a síndrome e maior ocorrência de diferentes desfechos cardiovasculares.
No entanto, a heterogeneidade entre estudos e a baixa ou muito baixa certeza da evidência limitam a precisão das estimativas. Além disso, as análises não demonstraram de forma consistente aumento da mortalidade cardiovascular; portanto, o médico precisa evitar a interpretação de que toda paciente jovem apresenta alto risco imediato.
A diretriz reconhece que mulheres na pré-menopausa geralmente apresentam baixo risco cardiovascular absoluto. Ainda assim, recomenda avaliar fatores de risco em todas as pacientes com a síndrome, independentemente da idade e do IMC.
Na prática, o acompanhamento inclui:
- Solicitar perfil lipídico no diagnóstico e definir novas avaliações conforme alterações e risco global;
- Aferir a pressão arterial anualmente, além de avaliá-la no planejamento gestacional.
- Investigar tabagismo, diabetes e outros fatores de risco, para orientar prevenção e tratamento individualizados.
Assim, a cardiologia contribui sobretudo quando a complexidade cardiovascular exige avaliação especializada. Entretanto, o rastreamento básico não precisa esperar pelo encaminhamento: ginecologistas, endocrinologistas e médicos da atenção primária também podem iniciá-lo.
A SOMP exige integração clínica, mas não impõe um percurso fixo entre quatro consultórios. Para organizar o cuidado, a equipe precisa identificar quem coordena o seguimento, compartilhar os principais achados e direcionar encaminhamentos conforme os riscos, os sintomas e os objetivos da paciente.
Além disso, o recorte das quatro especialidades não esgota as necessidades assistenciais. Em mulheres adultas, a diretriz recomenda rastrear depressão e ansiedade; conforme os achados, a equipe deve aprofundar a avaliação e oferecer tratamento ou encaminhamento apropriado.
Embora as recomendações apoiem modelos integrados, a literatura ainda oferece poucos estudos sobre sua implementação e seus resultados em serviços reais. Uma revisão sistemática sobre modelos de cuidado encontrou apenas seis artigos que descreviam cinco modelos, o que limita conclusões sobre a superioridade de uma configuração específica de equipe.
Portanto, a principal implicação prática não consiste em multiplicar especialistas, mas em conectar decisões. Quando o médico reconhece a SOMP para além da queixa inicial, aplica critérios diagnósticos adequados e acompanha riscos ao longo do tempo, organiza um cuidado mais coerente com a natureza multissistêmica da síndrome.
Estude as condutas mais avançadas da SOMP com as práticas da Pós em Saúde da Mulher na Caduceu.
Referências:
- https://academic.oup.com/humrep/article/38/9/1655/7241786
- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39119982/
- https://caduceucursos.com.br/perimenopausa-evidencias-clinicas/
- https://caduceucursos.com.br/estatuto-do-paciente-o-que-muda-na-pratica-clinica/

Redator SEO