Em meados dos anos 40, o médico australiano John Cade descobria um poderoso aliado na saúde mental. Estamos falando do “ouro do futuro”: o lítio. Do qual passaria de um elemento para baterias de produtos eletrônicos, para um poderoso aliado da psicofarmacologia.
Neste artigo, exploraremos primeiramente, os mecanismos moleculares do lítio, como a inibição de GSK-3β e IMPase, e as evidências clínicas de sua superioridade na prevenção de recaídas e suicídio em transtorno bipolar.
Mecanismos Moleculares do Lítio
O lítio atua em múltiplas vias intracelulares, modulando a sinalização neuronal e promovendo neuroproteção no transtorno bipolar (TAB). Seu mecanismo principal envolve a inibição não competitiva da inositol monofosfatase (IMPase) e da inositol polifosfatase (IPPase), deplecionado mioinositol e segundos mensageiros como IP3 e DAG, o que atenua a hiperexcitabilidade glutamatérgica.
Ademais, inibe a glicogênio sintase quinase-3β (GSK-3β) ao substituir magnésio ou via fosforilação por Akt, regulando apoptose, neuroplasticidade e fatores neurotróficos como BDNF e Bcl-2.
Inibição da IMPase (Hipótese da Depleção de Inositol)
O lítio inibe a enzima Inositol Monofosfatase, reduzindo a reciclagem do inositol. Todavia, em neurônios hiperexcitados, essa interrupção “acalma” a célula ao diminuir a ressíntese de segundos mensageiros, sem afetar neurônios com atividade normal.
Inibição da GSK-3β
A enzima Glicogênio Sintase Quinase 3 Beta é o “interruptor” da sobrevivência celular. O lítio a inibe de duas formas: diretamente (competindo com o Magnésio) e indiretamente (via ativação da via Akt).
Evidências Clínicas na Prevenção de Recaídas e Suicídio
O lítio como padrão-ouro no tratamento de manutenção do Transtorno Afetivo Bipolar é sustentado por metanálises que demonstram superioridade na redução de episódios de polaridade maníaca. Nos casos de menor escala, depressiva, apresentando um Number Needed to Treat (NNT) significativamente favorável quando comparado a anticonvulsivantes e antipsicóticos atípicos.
Para além da estabilização timoléptica, o lítio exerce um efeito antisuicida, reduzindo as taxas de tentativas e óbitos por autoextermínio em até 80% segundo dados epidemiológicos longitudinais. Ademais, este fenômeno parece ser mediado por mecanismos que transcendem a melhora do humor per se, envolvendo a modulação de circuitos pré-frontais associados ao controle de impulsividade e agressividade.
Portanto, a manutenção de níveis séricos (litemia) na janela terapêutica estreita de 0,6 a 1,0 mEq/L correlaciona-se com a preservação do volume hipocampal e da substância cinzenta. Além do mais, confere um efeito neuroprotetor que mitiga o declínio cognitivo progressivo associado ao neuroclasticismo das sucessivas recaídas.
Por fim, vale ressaltar que, o efeito antisuicida do lítio é tão potente que alguns estudos observacionais sugerem uma correlação inversa entre a concentração de lítio na água potável de certas regiões e as taxas locais de suicídio na população geral.
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Referências:

