O avanço das pesquisas sobre GLP-1 na pediatria ampliou as possibilidades de tratamento da obesidade, especialmente entre adolescentes. Ensaios clínicos com liraglutida e semaglutida demonstraram redução do índice de massa corporal (IMC) quando esses medicamentos foram associados a intervenções no estilo de vida. Entretanto, interpretar esses resultados exige atenção à idade dos participantes, aos critérios de inclusão e ao tempo de acompanhamento.
Além disso, comprovar benefício em um estudo não significa estabelecer uma indicação para qualquer criança ou adolescente. No Brasil, a Anvisa publicou indicações para determinados produtos e perfis de pacientes a partir dos 12 anos. Portanto, a avaliação precisa distinguir três dimensões: a evidência científica, a autorização regulatória e a decisão clínica individual.
GLP-1 na pediatria: o que os estudos demonstram?
Os medicamentos abordados aqui são agonistas do receptor de GLP-1, como liraglutida e semaglutida. No tratamento da obesidade, a ação sobre o apetite e a ingestão alimentar ajuda a explicar seus efeitos sobre o peso. Contudo, os ensaios pediátricos não avaliaram o medicamento como uma intervenção isolada: o acompanhamento do estilo de vida fez parte do tratamento.
Semaglutida: os resultados do STEP TEENS
Publicado no New England Journal of Medicine em 2022, o STEP TEENS incluiu 201 adolescentes de 12 a menos de 18 anos. O estudo comparou semaglutida subcutânea semanal, na dose-alvo de 2,4 mg, com placebo durante 68 semanas. Ambos os grupos receberam intervenção no estilo de vida.
Ao final desse período, os principais resultados foram:
- Variação média do IMC de −16,1% com semaglutida, em comparação com +0,6% com placebo;
- Diferença estimada de −16,7 pontos percentuais entre os grupos;
- Perda de pelo menos 5% do peso corporal em 73% dos participantes avaliados no grupo semaglutida, contra 18% no grupo placebo.
É importante diferenciar os desfechos: redução percentual do IMC e perda percentual de peso corporal não são medidas equivalentes. Além disso, os números representam resultados de grupos estudados, e não uma previsão individual de resposta.
O estudo também encontrou resultados favoráveis em alguns marcadores cardiometabólicos. Entretanto, essas análises secundárias não permitem concluir, por si só, que o tratamento previne infarto, acidente vascular cerebral ou outras complicações na vida adulta. O ensaio não foi desenhado para responder a essas perguntas.
Liraglutida: evidências em adolescentes
O ensaio clínico publicado em 2020 avaliou 251 adolescentes de 12 a menos de 18 anos com obesidade e resposta insuficiente ao tratamento baseado apenas em mudanças no estilo de vida. Os participantes receberam liraglutida diária, na dose de 3,0 mg, ou placebo, associados à intervenção no estilo de vida, por 56 semanas.
A liraglutida apresentou benefício no desfecho principal, a mudança no escore de desvio-padrão do IMC. Além disso, as proporções estimadas de participantes com redução de pelo menos 5% do IMC foram de 43,3% com liraglutida e 18,7% com placebo. Após a interrupção do tratamento, porém, houve aumento do escore de IMC, reforçando a importância de discutir a continuidade do cuidado.
Embora os resultados numéricos dos ensaios sejam diferentes, eles não constituem uma comparação direta entre liraglutida e semaglutida. As populações, os períodos de tratamento e outros aspectos metodológicos diferem; por isso, comparações entre estudos precisam ser interpretadas com cautela.
Crianças menores de 12 anos: uma evidência que precisa ser contextualizada
O SCALE Kids, publicado em 2024, avaliou liraglutida em crianças de 6 a menos de 12 anos com obesidade. Em 56 semanas, a variação média do IMC foi de −5,8% com liraglutida e +1,6% com placebo, também com intervenções no estilo de vida.
Esse resultado amplia o conhecimento sobre uma faixa etária mais jovem. Entretanto, a publicação de um ensaio clínico não equivale automaticamente à aprovação do medicamento no Brasil. A bula brasileira consultada para Saxenda não recomenda seu uso em menores de 12 anos; assim, evidência de pesquisa e indicação regulatória devem permanecer claramente separadas.
Indicações aprovadas e decisão clínica: por que não são a mesma coisa?
No Brasil, a Anvisa publicou a ampliação de uso de Wegovy para adolescentes a partir de 12 anos com obesidade e peso corporal acima de 60 kg, como adjuvante à dieta hipocalórica e ao aumento da atividade física.
Da mesma forma, a indicação publicada para Saxenda contempla adolescentes a partir de 12 anos, com peso acima de 60 kg e obesidade definida por pontos de corte internacionais de IMC correspondentes a IMC adulto igual ou superior a 30 kg/m². O uso é associado ao aconselhamento de nutrição saudável e atividade física.
Portanto, não basta dizer que “a semaglutida” ou “a liraglutida” está aprovada para adolescentes. É necessário identificar o produto, a indicação, a faixa etária e os critérios previstos na bula vigente.
O que dizem as diretrizes?
A diretriz da American Academy of Pediatrics, publicada em 2023, recomenda oferecer farmacoterapia a adolescentes a partir de 12 anos com obesidade, conforme as indicações, os riscos e os benefícios de cada medicamento, como complemento ao tratamento comportamental e de estilo de vida.
Essa recomendação reconhece o papel da farmacoterapia no cuidado. Contudo, não representa uma orientação para prescrever automaticamente a todos os adolescentes com obesidade. Além disso, uma diretriz norte-americana não substitui os critérios regulatórios brasileiros.
Para organizar a avaliação, alguns pontos precisam ser considerados:
- Características e gravidade da obesidade, com interpretação do IMC para idade e sexo;
- Presença de comorbidades e repercussões da doença;
- Histórico de tratamento e condições reais de acesso ao cuidado;
- Indicação, contraindicações e precauções do produto;
- Benefícios esperados, tolerabilidade e possibilidade de acompanhamento.
Segurança, acompanhamento e limites das evidências
A avaliação de segurança precisa acompanhar a leitura dos benefícios. No STEP TEENS, eventos adversos gastrointestinais ocorreram em 62% dos participantes tratados com semaglutida e em 42% daqueles que receberam placebo. Náuseas, vômitos e diarreia estiveram entre os eventos mais frequentes. Além disso, cinco participantes do grupo semaglutida, aproximadamente 4%, apresentaram colelitíase, enquanto nenhum caso foi registrado no grupo placebo.
No ensaio de liraglutida em adolescentes, eventos gastrointestinais também foram mais frequentes: 64,8% com o medicamento e 36,5% com placebo. A interrupção por eventos adversos ocorreu em 10,4% do grupo liraglutida e em nenhum participante do grupo placebo.
Por que o acompanhamento faz parte do tratamento?
Os estudos avaliaram medicamentos dentro de protocolos estruturados, com visitas, monitoramento e intervenções no estilo de vida. No STEP TEENS, pais ou responsáveis também participaram do aconselhamento. Assim, os resultados devem ser interpretados nesse contexto, e não como evidência de benefício equivalente sem suporte assistencial.
Apesar dos avanços, persistem limites importantes. O STEP TEENS teve 68 semanas de tratamento e um acompanhamento curto após sua interrupção. Além disso, determinadas populações foram pouco representadas: apenas um participante tinha sobrepeso, e alguns grupos raciais e étnicos tiveram participação limitada.
Consequentemente, permanecem questões sobre:
- A manutenção dos benefícios por muitos anos;
- A evolução após a suspensão do medicamento;
- A segurança de exposições prolongadas durante o desenvolvimento;
- A aplicação dos resultados a populações diferentes das estudadas.
Durante o STEP TEENS, não foram identificadas alterações clinicamente relevantes no crescimento ou no desenvolvimento puberal. Entretanto, esse achado se refere ao período observado e não elimina a necessidade de estudos mais longos.
O uso de GLP-1 na pediatria representa um avanço no tratamento da obesidade, com benefícios demonstrados em ensaios clínicos de adolescentes e novas evidências em crianças mais jovens. No entanto, os resultados precisam ser interpretados dentro das faixas etárias, dos critérios de seleção e dos períodos efetivamente estudados.
Portanto, evidência científica, indicação aprovada e decisão individual não são conceitos intercambiáveis. A farmacoterapia pode integrar o cuidado, mas sua utilização depende de avaliação de riscos e benefícios, respeito à bula e associação ao acompanhamento comportamental e de estilo de vida.
Conhecer o medicamento é apenas parte dessa avaliação. Compreender para quem ele está indicado e como incorporá-lo ao cuidado do adolescente e de sua família é o que transforma informação científica em prática clínica responsável.
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Referências:
- https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2208601
- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32233338/
- https://caduceucursos.com.br/cursos/pos-graduacao/pos-graduacao-medica-em-pediatria/
- https://caduceucursos.com.br/analogos-de-glp-1-na-obesidade-revisao-completa-em-2026/

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